Reciprocidade
Quando foi mesmo que se romantizou o “dar sem esperar nada em troca”?
Entramos em campo sensível. Assim é tudo que faz fronteira com o mundo das relações. Não gosto de opinar sobre relações. Não gosto que opinem sobre as minhas. Ainda assim, há temas que têm um centro de lógica, mesmo que sejam abstratos. A reciprocidade é um deles. Esse ponto de lógica é a energia, o equilíbrio e em última instância, a justiça.
Vivo num mundo de doadores. Cresci numa família de doadores e cuidadores. Trabalho diariamente rodeada deles. E o que percebo claramente é que nem todos dão na mesma medida. Isso à partida não deveria ser problema. Ouvi uma entrevista há uns tempos, duma psicóloga que partilhava fazer uma coisa interessante com o marido. Quando chegava a casa dizia um número. Imaginem 80%. Significava que tinha tido um dia bom, estava com energia e tinha muito para dar. Por outro lado, num dia mau, atirava uns 15%. O marido sabia que naquele dia tinha que compensar a falta. Naquele dia ela estava em modo sobrevivência e não tinha para dar. Este exemplo refere-se a equilíbrio. Não damos todos na mesma medida, todos os dias. Mas numa relação em que há reciprocidade, há também honestidade e abertura, entendimento, uma comunicação clara e transparente e há espaço para acolher a vulnerabilidade.
Quando falo de energia, falo de troca, de um fluxo que é natural e não exige esforço. Existe abertura, interesse, presença e nutrição mútua. Quando uma relação entra em modo de forçar conexão, quando não flui, quando é preciso mendigar atenção, reconhecimento ou presença, há claramente um desequilíbrio energético. E crua e logicamente, essa energia não deixa dúvidas que não há margem para florescer. Quem quer saber, pergunta. Quem quer estar, aparece. Quem sente falta, arranja tempo. Quem se preocupa, cria espaço. Quem ama, escolhe ficar e cuidar, mesmo em proporções desiguais.
Quanto à justiça, tendo sido criada e educada num ambiente em que “mulher faz tudo”, e estando ainda a trabalhar esse tema em mim, como pode alguém sobrecarregada de rotinas e tarefas, sentir satisfação e motivação a cada dia. Relação é partilha. É equidade. É justiça.
Não acredito no dar sem receber, principalmente no que toca a relações. Qualquer tipo de relações. Se não há reciprocidade, não creio que haja saúde. Se não flui, se pesa, se está em desequilíbrio constante, se não é justa, qual o sentido lógico dela?
Amor sem reciprocidade é desgaste. Afeto sem retorno é abandono silencioso. E maturidade emocional é respeitar-se o suficiente para saber isso e não insistir quando não há espaço para crescer.