Para quê reclamar?
Talvez a verdadeira inteligência não esteja em nunca nos queixarmos, mas sim em saber quando parar
Há dias, numa conversa com um amigo, saiu-me uma frase espontânea:
“Pessoas inteligentes não se queixam.”
Depois de a dizer e antes de escrever este texto, percebi que não é totalmente verdade.
O mundo não é preto e branco. Existem situações profundamente injustas, dolorosas e difíceis. Muitas delas passam diariamente pelas minhas mãos. E quem as vive tem toda a legitimidade para expressar a sua dor, indignação ou frustração. É uma forma de libertação emocional.
Mas queria realmente dizer outra coisa.
Acredito que as pessoas mais resilientes tendem a permanecer menos tempo na queixa. Não porque sofram menos, mas porque direcionam mais rapidamente a sua energia para aquilo que podem fazer. Perante a adversidade, procuram adaptar-se, encontrar alternativas ou mudar de perspectiva.
Como profissional da área da saúde, gosto de factos. E os factos mostram-nos que reclamar constantemente não é inofensivo. Quando nos queixamos, sentimos inicialmente algum alívio. Ao verbalizar uma frustração, libertamos tensão acumulada e experimentamos uma sensação momentânea de alívio emocional. No entanto, quando a queixa se transforma num hábito, o cérebro entra repetidamente em estados associados ao stress. A exposição frequente a pensamentos negativos está relacionada com um aumento da libertação de cortisol, a chamada hormona do stress, que influencia diversas funções do organismo, incluindo a capacidade de concentração, a tomada de decisões e o bem-estar emocional.
Mais do que um comportamento, a reclamação permanente pode tornar-se uma forma de olhar para o mundo.
E talvez seja aí que reside o verdadeiro problema.
Vivemos numa época em que somos constantemente expostos à vida dos outros. Abrimos as redes sociais e encontramos corpos perfeitos, viagens inesquecíveis, carreiras brilhantes, relações felizes e casas impecáveis.
Sem nos apercebermos, começamos a comparar os bastidores da nossa vida com os momentos mais editados da vida dos outros. E então surgem as queixas.
Quando, na realidade, talvez apenas estejamos a esquecer-nos de olhar para aquilo que já temos.
Não se trata de ignorar problemas nem de fingir que tudo está bem. Trata-se de distinguir aquilo que podemos controlar daquilo que não podemos. Trata-se de substituir a reclamação pela ação sempre que possível.
Se não gostas, muda.
Se não resulta, ajusta.
Se não funciona, adapta.
Se não podes mudar, aprende a aceitar.
E, acima de tudo, pratica a gratidão.
Porque a forma como treinamos o cérebro, acaba por moldar a forma como vivemos.
Todos temos razões para reclamar. A questão é: quanto tempo queremos permanecer nesse lugar?
Talvez a verdadeira inteligência não esteja em nunca nos queixarmos.
Talvez esteja em saber quando parar.